"Viver!
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz..."

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A vida ou a análise da vida?



"Não deixaremos de explorar e, ao término da nossa exploração deveremos chegar ao ponto de partida e conhecer esse lugar pela primeira vez." (Thomas Stearns Eliot 1888-1965)

Uma das críticas feitas pelo apaixonado Nietzsche a Sócrates é que este fez algo extremamente errado em sua filosofia que colocaria a vida para sempre em xeque-mate, a mudança do viver a vida pela análise da vida. O desejo mais comum nas pessoas é esse sonho de viver a vida, uma vida com mais prazeres do que uma vida com menos insatisfação. Todos os processos de conquistas, todas as lutas por mais justiça se resumem por muitas vezes a isso, dar a cada um (ou somente ao seu clã) o prazer de viver a vida, de experimentar e buscar o que a vida tem de melhor para lhe oferecer. Então quer dizer que o Alemão nesta disputa de amor-ódio teve mais certeza que o Grego? Nietzsche teria razão ao dizer que com essa filosofia as pessoas deixariam de viver a vida? Logicamente não é bem assim, o próprio Alemão é viciado na filosofia socrática.
Uma pessoa que abomina a razão pudesse escolher entre um mundo instintivo ou um racional, poderia ser essa afirmação do Alemão a mais adaptável, talvez fosse melhor um mundo do jeito que veio e que sempre foi (um mundo natural), em vez de querer melhorar e apenas piorar. Um mundo em que não exista ninguém para nos julgar e condenar, sem leis parlamentares para seguir e sem palavras para declarar. Seria um mundo apenas dos sentimentos, mas não necessariamente um mundo só de Amor e Felicidade. Sentimentos de tristeza certamente são habitantes desse mundo, visto pelo Alemão antes da filosofia de Sócrates. E como nesse mundo não existe a análise da vida, quem é triste não conhece o que é felicidade, logo é condenado pela vida a viver na tristeza, mesmo nesse mundo não existindo tristeza de forma literal. Agora, Sócrates propôs que toda pessoa deve analisar a vida, examiná-la para saber qual o melhor a fazer, e com isso criou uma nova revolução do pensamento ocidental, mas não necessariamente uma análise da vida crua e pura, e sim um viver a vida pela análise da vida, para que a vida caminhe já sabendo identificar os misteriosos obstáculos pela frente, com desejo em lhe derrubar. Mas na atualidade muitos dão mais valor em viver a vida, do que a análise da vida, claro que a primeira é a coisa mais gostosa do mundo, mas a segunda é ingrediente necessário para que essa delícia tenha um sabor sempre prazeroso. Pois será que uma pessoa que diz viver a vida sem tê-la analisado primeiro, pode dizer que realmente está vivendo a vida, sem ao menos saber o que é vida ou tentar conhecê-la primeiro? Já outros dizem que é impossível alguém conhecer o que vem a ser realmente a vida, sendo assim a análise da vida é uma perda de tempo? Não é bem assim, penso que devemos viver a vida juntamente com a análise da vida, mas cada uma separada da outra. Isso sem deixar a vida oprimir a análise da vida, e a análise da vida aprisionar a vida. Viver a vida e viver a análise da vida. Talvez seja essa a "Medicina da vida" que Sócrates sempre quis ensinar e que Nietzsche nunca se deixou levar, o levar da vida na análise da vida. Nietzsche criticou Sócrates quanto a essa passagem, mas continuou escravo do que reclamava. Sócrates deu luz a essa transformação, mas nunca foi escravo da razão. Ele soube continuar a viver a vida sem deixar de analisar a vida. Se Sócrates estivesse vivo certamente diria "O erro dos seres humanos é tentar sempre entender a razão, esquecendo que a razão não é para ser absolutamente compreendida, mas também sentida para não perder toda a sua magia".

"Há, eu garanto, uma medicina da alma. É a filosofia, cujo benefícios não precisam provir, como nas doenças do corpo, de fora de nós mesmos. Devemos nos aplicar com todas nossos recursos e toda nossa força para tornar-nos capazes de curar a nós mesmos" (Cícero, Tusculanas, 3.6)

2 comentários:

  1. Bom dia Hugo, li o seu comentário no Blog do Prof. Fabrício Andrade e por isso passei por aqui para ler um pouco mais de suas reflexões. Parabéns pela qualdiade de seus textos. O homem precisa da razão e também da emoção. Eu acredito na convivência de ambas, ou seja, a emoção pouco racional é cega, assim como a razão desprovida de emoção pode ser muito dura e desumana. Thonny Hawany

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  2. Acertou na mosca Hawany, as emoções também tem o seu papel fundamental na tomada de decisões racionais.
    Esse seu exemplo me lembrou uma passagem do filosofo Peter Singer: "Se a emoção sem a razão é cega, então a razão sem a emoção é impotente" (Escritos sobre uma Vida Ética).
    É como diz o professor George Marmelstein "Se a razão é o motor para para uma vida ética, a emoção é seu combustível".

    Abraços... e seja bem-vindo sempre Thonny.

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